PARADA CARDÍACA (Paulo Leminski)
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto
sinto muito
sentir é muito lento.

ENVELHECER A ALMA (Como eu me vejo?)
Nem toda muralha da China seria suficiente para competir com a barreira do meu coração. Não é que eu não acredite no amor, longe disso, mas entendi que ele não foi feito para mim. Não no sentido do amor: homem x mulher. Outros amores me perseguem e não são inferiores. Diante de minhas reflexões observei que talvez eu seja uma pessoa com a alma envelhecida.
Não creiam que isto seja tão ruim assim, posto que, esta condição tenha me poupado muitos dissabores. Hoje, não sei dizer se amei várias vezes ou se confundi várias vezes.
Meu medo é olhar um dia para trás e constatar que havia alguém depois da porta e, minha alma envelhecida, ousou reter-me para o vale do medo.
O medo é tido como arma dos covardes mas ele é muito mais valioso que isto. Ele sussurra aos ouvidos precauções e conselhos. Amigos fiéis que me privaram da condição de incauta. Eu só queria um grande amor daqueles que não acabam. Cansei de procurar e cansei de tentar buscar respostas sobre dúvidas de amores ou confusões.
Agora vejo-me aqui. Feliz e não feliz. Jovem e envelhecida. Confiante e apavorada. Nesse jogo dúbio há outra antítese. Minha vida ou minha morte.
Quando eu realmente envelhecer como estará minha alma? Quem será mais velho? Ela ou meu corpo? Muitos dizem que o corpo envelhece e a alma não. Por que não? Quem disse que envelhecer é ruim? Envelhecer é sinônimo de experiência. Eu só gostaria de saber em que ponto da minha vida construí uma muralha tão grande?

Como eu me vejo?
Lentamente o fio envelhece deixando o doce veludo para trás
desejos e recordações adormecem no vale do ontem
esfregar os olhos é a ordem da vida mas não se vê nada
o bem e o mal já não lutam mais
tudo é monocromático
passivo
prantear?
não mais
onde está a dor?
ficou lá trás
Melhor seria ter encontrado! (Ah, sim!)
Agora?
É ponto final.
(Adriana)

Legião Urbana - Hoje a Noite Não Tem Luar
Ela passou do meu lado
Oi, amor - eu lhe falei
Você está tão sozinha
Ela então sorriu pra mim
Foi assim que a conheci
Naquele dia junto ao mar
As ondas vinham beijar a praia
O sol brilhava de tanta emoção
Um rosto lindo como o verão
E um beijo aconteceu
Nos encontramos à noite
Passeamos por aí
E num lugar escondido
Outro beijo lhe pedi
Lua de prata no céu
O brilho das estrelas no chão
Tenho certeza que não sonhava
A noite linda continuava
E a voz tão doce que me falava
O mundo pertence a nós
E hoje a noite não tem luar
E eu estou sem ela
Já não sei onde procurar
Não sei onde ela está
Hoje a noite não tem luar
E eu estou sem ela
Já não sei onde procurar
Onde está meu amor?
O POEMA

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
(Mario Quintana)

EU MAIS EU PENSANDO!
"...a vida, que vai desaparecer de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem peso, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm o menor sentido. Essa vida não deve ser considerada mais importante do que uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte através de indescritíveis suplícios."
(trecho do livro " A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera).

Dez longos e escuros dias intermináveis em total prostração. Fiquei completamente imobilizada diante de um ser tão pequeno. Entrei para as estatísticas das pessoas que contraíram a dengue. Eu, uma pessoa que não se lembra de estágios doentes, que não costuma repousar e que odeia ficar parada. Eu tive dengue um dia após o enterro da minha avó e fiquei dez dias literalmente de "molho".
Sem exageros e não querendo ser piegas "Eu achei que fosse morrer!". Meu cérebro não funcionava, tudo doía, febres altíssimas, enjôos etc. Por aí vai uma infinidade de sintomas absurdos que reduzem o ser humano à condição de "humano".
Isso me fez pensar em minha vida e em como ela é essencial e insignificante também. Sempre lembro de minha mãe conversando com as amigas "Tendo saúde, tudo está bem...", e na grande verdade que isso carrega.
Eu sou um pó. Fui derrubada por um simples mosquitinho insignificante que me privou das minhas melhores alegrias e prazeres, que me roubou abruptamente de meus afazeres.
Até um simples poema, maravilhoso poema me foi usurpado. Minha atenção era uma pena que voava de um lado para o outro.
Fugaz. Essa é a palavra. Minha vida é fugaz. Minha condição de vida é totalmente transitória. Sempre soube disso mas não com essa veracidade.
O que mais fiz nesses dias foi pensar.
Certamente foram válidas minhas conclusões, pois acreditem, quando minha mãe falar sobre saúde, não serei tão cética.

Adriana Calcanhotto - Saiba
by Arnaldo Antunes
Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Saddam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao-Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Gandhi, Mike Tyson, Salomé
Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você
DESPEDIDA

O que falar? Hoje foi o último adeus vózinha.
O último adeus, a última avó.
De que me lembro? Dos seus cabelos brancos, do seu relógio que tocava a cada hora, da xícara de café e do pão com manteiga que você colocava à mesa sem que eu pedisse, dos vestidos floridinhos, da risada disfarçada, do meu avô segurando sua mão, do sapatinho preto, do seu cabelo igualzinho ao meu na juventude, dos dias de Páscoa com todos os netos juntos, a bagunça, o fundo do quintal e os pés de jatoticaba.
Você e o meu avó, foram a mais bonita história de amor que eu já conheci. Nunca brigaram e juntos até o final. Mesmo depois da morte dele, você se entregou a esperá-lo.
Ah, vó! Quando você já não conhecia ninguém e eu segurei sua mão...e você disse: Adriana!!! e chorou muito. Eu me lembro vó.
Você foi mas deixou sua marca. Dê um beijo no vovô, ele está te esperando. Tchau, até logo....vózinha.
A GRANDE TEIA

"Doce amor da juventude, me perdoa, porque as correntezas de paixões me carregam de um lado para o outro. Neste momento, eu devo me entregar, sem tentar entender o que acontece em meu coração. Mas quando essas correntezas enfraquecerem, este doce amor irá permanecer.
E mesmo que tudo acabe, basta que o amor sobreviva _ e eu sobreviverei também. Entretanto, se tudo permanecer, menos o amor _ o Universo passará a ser um estranho para mim. O amor muda como as folhas das árvores no outono. E se eu for capaz de entender isto, serei capaz de amar."
(Trecho do livro "O morro dos Ventos Uivantes", de Emile Brontè).
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A TEIA
Tudo emerge ao mesmo ponto
Cerne de uma vida rasgada
Sem notas de músicas alegres
Lá, naquele naufrágio de lágrimas
Construíste tua teia
Fio a fio sem cerimônia
Para me guardares em brancos lençóis
À espera de um milagre de mãos
Coração, pedra...ferro.
À espera de alguém que toque sem derramar sangue
Que envolva sem proferir negras mentiras
Lá, bem no centro da teia...
Te espero
Lave as mãos pois o chão é escuro e,
a alma não encontra paz
Até que tudo esteja limpo
Até que tudo seja morte.
No centro da teia.
(Adriana)
Marcus Viana - Vidas, Amores E Guerras
by Marcus Viana
O que passou e o que virá
Se irmanam em cruz no coração
Pois quem ardeu ao sol de uma paixão
Sabe renascer das cinzas da solidão
Deixa eu te tomar entre os braços
E ir aos jardins do céu, que o arcanjo zelou
Quero ouvir romanças dos lábios teus
Como flores que o tempo não levará, porque não são daqui.

Espreitar, rastejar, observar...se conduzir e sonhar!
Eu sou uma aranha.
Eu sou um grito!
Quem me ouve?

Tenho várias lembranças de minha infância, algumas suaves outras nem tanto assim.
Quando tinha uns cinco ou seis anos lembro-me de um ritual, quase artístico, que fazia todas as manhãs quando ia à escola. No percurso, em frente a uma casa de portão verde e grandes cadeiras brancas, havia um monte de areia na calçada. Toda manhã que por ali passava, eu fazia questão de subir e marcar com meu tênis azul vários passos. Mesmo contrariando o adulto que me acompanhava, por ora minha irmã mais velha ou minha mãe, praticava religiosamente tal ritual. Perguntava às vezes por que aquele monte de areia estava ali sem que ninguém o usasse. Não havia vestígios de nenhuma construção ou qualquer outra serventia para que ali ele estivesse. Mas eu não me importava. Ele era meu por alguns segundos das minhas manhãs.
Foi muito triste quando tive que mudar de escola pois o caminho que faria era outro e não passaria mais por ali. Fiquei pensando se haveriam outros montes de areia para eu passar e chafurdar-me. Não houveram outros montes e depois de muito tempo passei em frente à casa de portões verdes que sustentava uma grande placa que dizia "Vende-se". Ali na rua todos se conheciam e minha mãe quis saber o porquê de tal placa já que ali morava uma senhora há muitos anos. Uma vizinha atenciosa informou que a velhinha havia morrido e que os filhos queriam se desfazer da casa. Comentei minha desolação e as lembranças de minhas brincadeiras na calçada da casa.
A senhora me sorriu e me fez uma pergunta que até hoje não esqueci:"Então é você a menininha que brincava na areia?". Assenti com a cabeça. A vizinha sempre perguntara à velhinha por que não retirara aquele amontoado de areia já que não iria usar para nada pois a reforma que tinha feito já havia acabado há tempos. Prontamente ela respondia que não queria magoar a menininha que brincava todas as manhãs na sua calçada.
Eu nunca ouvi uma palavra da velhinha e nunca pude agradecer-lhe a intensa lembrança que me proporcionou de minha infância mas, ainda hoje, quando vejo montes de areia, me lembro dela e me pergunto se faria tal coisa para alguém que nem conheço. Às vezes, a vida nos faz aquiescer e nós nos revoltamos. Certos fatos não há como serem alterados e só nos resta aceitar. Simplesmente aceitar.

Trecho de "Olhai os Lírios do Campo", de Érico Veríssimo, publicado em 1938
"Que é a vida, doutor? A vida... a vida... o senhor sabe... Não vale a pena viver... Eu às vezes penso: Ora, a gente nasce, vive sofrendo, mas pra quê? Ninguém é sincero, os homens são egoístas. As mulheres também. A gente às vezes de apaixona, se faz de bobo e por quem, doutor? Por uma dessas diabas pintadas e falsas que amanhã a terra come as carnes e elas ficam esqueleto, como qualquer cozinheira. O senhor decerto leu aquele versinho dos dois esqueletos, o do nobre e o do pobre, conversando debaixo da terra. O pobre se ergueu e perguntou pro nobre: Onde estão os teus avós nessa ossada branca? O outro não sabia. Todos na morte somos iguais. Mas o que é a morte? A morte, doutor, pode ser um sono sem sonhos. Ou então a vida é o sonho da morte..."
SONHAR É COMO COMER MORANGOS...

Há quem diga
que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem diga que nem todas,
só as de verão.
Mas no fundo
isso não tem muita importância.
O que interessa mesmo
não são as noites em si,
são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares,
em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado.
"Sonhos de Uma noite de Verão"
(William Shakespeare)

Tudo Bem (Os Morangos Estão Lá)
Tudo bem
Como exercício de prosa
Admitamos que não está mal
Eu podia ser mais crítico
Mas não me apetece
Não quero ser original
Tudo bem
Se me perguntas porquê
Eu respondo que é igual
Sou um observador comum
Com tendência para o compromisso
Tenho visão bilateral
E ninguém me pode negar o prazer da tua companhia
Sou o teu amigo público
Número não sei quantos milhões e mais alguns mil
Sou teu fã de nascença
Em permanente sintonia
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil
Tudo bem
Aqui ninguém me conhece
Vou ser quem eu quiser
Vou seguir a minha pista
Abraçando o meu par
Fechar os olhos e ver
Tudo bem
Eu vejo alguém acordado
Vejo alguém a sonhar
Alguém voando na rua
Alguém andando no mar
E vejo alguém a duvidar
E ninguém me pode negar o prazer da tua companhia
Sou o teu amigo público
Número não sei quantos milhões e mais alguns mil
Sou teu fã de nascença
Em permanente sintonia
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil
Tudo bem
A chama tem que existir
Faça chuva ou faça sol
Nas mais sinistras mentes
Nos corpos mais angelicais
Nas rendas do meu lençol
Tudo bem
Os morangos estão lá
Para quem os souber encontrar
Eternamente vermelhos
Despidos e sujos
Sem nada a declarar
E ninguém me pode negar o prazer da tua companhia
Sou o teu amigo público
Número não sei quantos milhões e mais alguns mil
Sou teu fã de nascença
Em permanente sintonia
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil
Sempre pronto para tudo
Do mais sublime ao mais vil.
(Jorge Palma)

Certo dia, um morango resolveu sair pelo mundo em busca de aventuras. Encontrou muitos lugares e novas amizades. Sempre procurou esquecer seu passado e, destruir suas lembranças que o faziam sofrer.
A cada dia, sentia novas emoções e, neste campo de ilusões, esqueceu-se de quem realmente era.
Perdeu as cores, o sabor e simplesmente mudou de aparência.
Não era mais como antigamente. Tornou-se frio e sem aquilo que o tornava tão precioso, resolveu voltar aos antigos campos de onde, há tantos anos partira.
Chegando lá, sentiu um nó na garganta, reconhecia o lugar mas muitas coisas mudaram. Buscou os antigos amigos que, agora, já não o entendiam. Por que partiste?
Como explicar tamanho desencontro? Como fazê-los entender que precisou se perder para compreender que o sentido estava muito perto. Perto de verdadeiros amores! Longe de sonhos e ilusões não vividas.
Eu era um morango. Um morango perdido e que, na calma de uma manhã, ao longe dos campos vermelhos, encontrei o descanso na terra dos meus verdadeiros amores.
Como encontrar o morango procurado por uma vida inteira?
(Adriana)


"Smultronstället" (1957 - 88m)
Amor A falta de amor está vinculada a inúmeros filmes de Bergman e à sua própria vida. Nenhum resumo poderia ser melhor do que uma única narrativa do personagem Viktor, de Sonata de Outono (Herbstsonate ou Hostsonat, 1978): "Quando eu perguntei a Eva se ela queria se casar comigo, ela endireitou-se e disse que não me amava. Eu perguntei se ela amava outra pessoa. Ela disse que era incapaz de amar".
Durante a sua longa vida, o velho professor Borg trabalhou arduamente e vai agora ser prestigiado com o velho prémio pela Universidade de Lund. No dia da cerimónia, o professor acorda todo suado após ter tido um pesadelo. No seu sonho ele encontra-se no meio de uma rua deserta - sozinho, relógios sem ponteiros e tudo silencioso e vazio. Lentamente um carro fúnebre puxado por cavalos passa pela estrada, quando subitamente a carruagem tomba, deixando o caixão cair e abrir-se. O professor olha e vê-se a ele próprio dentro do caixão. Ao acordar percebe que o seu subconsciente está a tentar dizer-lhe qualquer coisa e a partir desse momento começa a reflectir sobre a sua vida.
Um dos filmes mais populares de Bergman e que conta com um elenco dos mais prestigiados da Suécia.
- Postado por: Drika às 17h24
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