METADE

Se se morre de amor!
"Se se morre de amor! _ Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende...
...Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração - abertos...
...E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes:
Isso é o amor, e desse amor se morre!"
(Gonçalves Dias)

"Quem por esta vida, passou em branca nuvem e em plácido repouso adormeceu. Quem não sentiu o frio da desgraça. Quem passou pela vida e não sofreu. Foi espectro de homem, não foi homem. Só passou pela vida, não a viveu."
(Francisco Otaviano)

Como uma prece diária nos colocamos à disposição da vida. Correr dela é inevitável pois seria como perder as cores de uma aquarela que tinge o crepúsculo.
Perder o rubor da face das crianças que brincam na manhã quente.
O orvalho que banha a madrugada.
O riso e a alegria do carnaval.
Seria como fugir do nascer. E o amor?! Seria vida também? Ou morte?
Metade quer ficar e metade quer fugir. Como não recorrer à prece?
Que o sonho não me deixe fugir e que a ilusão não me faça destruir.
Coloco agora a mão no colo e recordo o líquido vermelho que tingiu meus dias...
Foram dias de valsa triste e noite sem estrelas.
Costume. Rotina. Fuga.
Não pensar em nada; coração vazio.
Acordar todos os dias com o gosto da saudade e da lembrança!
O que é pior? Metade...
Fugir. Amar.
(Adriana)

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Oswaldo Montenegro - Metade |
Metade (Oswaldo Montenegro) Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca porque metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio. Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante porque metade de mim é partida mas a outra metade é saudade. Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos porque metade de mim é o que ouço mas a outra metade é o que calo. Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço e que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada porque metade de mim é o que penso mas a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância porque metade de mim é a lembrança do que fui a outra metade não sei. Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito e que o teu silêncio me fale cada vez mais porque metade de mim é abrigo mas a outra metade é cansaço. Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção. E que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também. |

"...Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever(...) Este livro é uma pergunta (...) Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados (...) O fato é que tenho nas mãos um destino e no entanto não me sinto com o poder de livremente inventar: sigo uma linha oculta fatal. Sou obrigado a procurar uma verdade que me ultrapassa (...) Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias."
(Clarice Lispector)
LER O QUE NUNCA FOI ESCRITO
Leio todos os dias aquilo que não foi escrito. Permanece adormecido em minha mente mas eu leio. Sinto gotejar uma a uma as palavras. Delas não me esqueço. Entro no seu mundo. Abraço-as e carrego-as no colo. São tantas que vez ou outra nem sei se as conheço, mas só de caminhar junto a elas passo a acenar-lhes de mansinho.
Chegam aos pares, soltas, exército inabalável...
Como prendê-las em folhas se muitas vezes escapam e fogem?
Hoje eu entendo.
Se para as folhas elas viessem morar nunca ficariam presas como pensam.
Multiplicariam-se e, quantas vezes que nem se poderia contar, estariam sendo
Observadas e acariciadas por milhares de pessoas.
Abririam suas páginas nos mais diversos países e, em todos os lugares seriam buscadas.
Mas pode ser que alguém, triste e sozinho, não veja a beleza de abrir-lhe. Não tenha o carinho e amizade suficiente para buscar-lhe. Não se permita voar em suas folhas.
Alguém que ainda não conhece a beleza de imaginar, de sonhar e de ler.

| Milton Nascimento(voz) - Resposta |
Bem mais que o tempo que nós
Perdemos ficou pra trás
Também o que nos juntou
Ainda me lembro que eu estava lendo Só pra saber o que você achou
Dos versos que eu fiz e
Ainda espero resposta
Desfaz o vento o que há por dentro
Desse lugar que ninguém mais pisou
Você está vendo o que está acontecendo
Nesse caderno sei que ainda estão
Os versos seus, tão meus que peço
Nos versos meus, tão seus que esperem
Que os aceite
Em paz eu digo que eu sou
o antigo do que vai adiante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro continuar distante
Bem mais que o tempo que nós perdemos
Ficou pra trás
Também o que nos juntou Anda me lembro que eu estava lendo
Só pra saber o que você achou
Dos versos seus, tão meus que peço
Dos versos meus tão seus que esperem
Que os aceite
Em paz eu digo que eu sou
o antigo do que vai adiante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro continuar distante. (Samuel Rosa/Nando Reis) RENOIR (A LEITURA E A SOMBRA) A luz vem sempre da leitura. Sai do que se lê. Irradia disso. |
QUANTAS CARTAS!

"É buscar aquele diamante
em que o vi se cristalizar,
que rompeu a distância
com dureza solar;
refazer aquele diamante
que vi apurar-se cá de cima,
que de lama e de sol
compôs luz incisiva;
desfazer aquele diamante
a partir do que o fez por último,
de fora para dentro,
de casca para o fundo,
até aquilo que, por primeiro
se apagar, ficou mais oculto:
o homem, que é o núcleo
do núcleo de seu núcleo."
(João Cabral de Melo Neto - 1967)

Estudando alguns aspectos da educação e me encantando com tantos pressupostos, creio na educação como prática social ligada sempre a uma certa visão de mundo. Podendo comprometer-se ou não com o ponto de vista das classes oprimidas e buscar ou não a tranformação social.
O homem precisa ser pensado em sua totalidade e não mais em sua singularidade. Críticas e conceitos pré-estabelecidos não dão conta da realidade.
"...Se você procurar bem você acaba encontrando
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida." (Drummond - 1988)
Por que tudo isso?
Não irei aqui discorrer sobre os estudos de minha dissertação mas somente quero registrar a emoção que senti outro dia. Sempre ao entrar em uma escola nova, desconhecida, me bate um desconforto inicial, um certo medo devo concluir. Logo, este desconforto dá lugar à uma curiosidade e uma certa criatividade momentânea.
Vou explicar. Tenho duas opções quando entro em uma sala de aula desconhecida: ou encanto ou sou engolida pelo desprezo.
Um professor precisa de público para apresentar seu show. Gosto de chamar a aula de 'show' e, deixando claro que o professor não pode ser o único apresentador. O público deve ser participante e ativo, sujeito de seu aprendizado e não pedra sem possível lapidação.
Este foi um dia especial. Tive duas opções e, falando a verdade, fiquei assustada à princípio. Sim, o professor tem medo também. Resolvi encantar e nada melhor do que simplesmente falar, conversar, entrar na "língua" deles. Fiquei emocionada. Depois de uma manhã naquela estranha escola, fui aos poucos recebendo cartinhas dos alunos, ao todo foram 32.
Nunca me aconteceu isso. Todas em um só dia. Tenho uma caixinha onde guardo todos os presentinhos, desenhos e recadinhos de meus alunos. Uma em especial chamou minha atenção:
"...Com A escrevo amor
Com P escrevo paixão
Com A escrevo Adriana do fundo do meu coração.
No fundo de minha
casa tem um pé de alecrim
todo mundo sabe que você gosta de mim.
No fundo de minha
casa tem um pé de limão
todo mundo sabe que
você é minha paixão"
Esse aluno me despertou profundo interesse. Ele ficava o tempo todo em pé de costas para mim. Pensei: ou repreendo ou entendo. Disse num repente que para ele se comportar assim algo na vida dele deveria estar errado. Realmente havia algo errado: a mãe fora embora com outro homem e o pai vivia caído em bares.
A educação não se resume somente em métodos e práticas mas na integração social e principalmente no amor. Não é utopia. Eu poderia ter excluído mas preferi amar. O resultado foram beijos, abraços e participação. Sei que foi somente uma gotinha mas foi um grande começo. Se todos procurarem este começo talvez o panorama da educação seja outro.
É muito mais fácil criticar e responsabilizar os outros. Sempre tenho a sensação de poder fazer mais, é muito frustrante entender meus limites e as barreiras que enfrento todos os dias mas quando encontro tantas "cartas" pelo caminho, entendo que estou no lugar certo.

| Renato Russo - A Carta |
Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor Porque veio a saudade visitar meu coração Espero que desculpes os meus erros por favor Nas frases desta carta que é uma prova de afeição Talvez tu não a leias mas quem sabe até darás Resposta imediata me chamando de meu bem Porém o que me importa é confessar-te uma vez mais Não sei amar na vida mais ninguém Tanto tempo faz, que li no teu olhar A vida cor-de-rosa que eu sonhava E guardo a impressão de que já vi passar Um ano sem te ver, um ano sem te amar Ao me apaixonar, por ti não reparei Que tu tivestes só entusiasmo E para terminar, amor assinarei Do sempre, sempre teu... |