SILÊNCIO NO MAR

Nossa é a miséria
Carlos Nejar
Nossa é a miséria,
nossa é a inquietação incalculável,
nossa é a ânsia de mar e de naufrágios,
onde nossas raízes se alimentam.
Em vão lutamos
contra os grandes signos.
Seremos sempre
a mesma folhagem
de madrugada ausente.
O mesmo aceno imperceptível
entre a janela e o sonho.
A mesma lágrima
no mesmo rosto vazio.
A mesma frase
dentro dos mesmos olhos
sob a fonte.
Seremos sempre
a mesma dor oculta
nas árvores, no vento.
A mesma humilhação
diante da vida.
A mesma solidão
dentro da noite.
A mesma noite antiga
que separa
a semente do fruto
e amadurece
os lábios para a morte
como um rasto
de silêncio no mar.

COMPREI: "A menina que roubava livros" de Marcus Zusak
Trecho do livro:
"Primeiro, as cores.
Depois, os humanos.
Em geral, é assim que vejo as coisas.
Ou, pelo menos, é o que tento.
EIS UM PEQUENO FATO.
Você vai morrer."

É no silêncio do mar que fica aquele que não imagina e não cria.
É na periferia do desuso e da limitação aquele que não encontrou a paixão de ler.
Como Carlos Nejar em seus "lábios para a morte" e "A mesma solidão dentro da noite", ou ainda, "imaginar é [...] elevar de um tom o real" de Gaston Bachelard, se torna desumano saber que há milhões e milhões de pessoas que nunca se encontrarão nestas paragens.
Recentemente participei de uma palestra com o educador Gabriel Perissé e achei perfeita a frase que ele usou: "Não basta doar, dar, disponibilizar ou emprestar livros às crianças ou aos jovens. Mas é preciso ensiná-los o que fazer com eles."
Ninguém consegue obrigar alguém a ler. Mas todos nós podemos despertar paixões. O ser humano se apaixona todos os dias...um pelo outro, pelo cheiro de algo gostoso, pelo sabor, pela beleza ou até pela falta dela, pelas flores de um ipê amarelo, por uma criança que acabou de aprender a falar...enfim...quem ensinou o ser humano a se apaixonar?
Qual a receita da paixão?
Ler é refletir, apreciar, admirar-se, sair do quase-conhecido para o melhor-conhecido.
Fidel Castro num discurso pronunciado em 2001 disse: "Las ideas son y serán siempre el arma más importante".
As pessoas deveriam roubar livros para si. Colecioná-los. Mutilá-los com os olhos. O livro pode fechar-se, mas a mente continua aberta. As idéias vêm. As idéias multiplicam-se.
O dia em que todos aprenderem que não somos nós que lemos os livros mas são eles que nos lêem...saberíamos que nossa vida foi feita para algo maior. Algo grandioso que começa nos livros como um roteiro e termina fecundado no dia a dia.
Muitas vezes eu não sei o que fazer. Procuro então nos livros. Nem sempre encontro. É bem verdade que nestas instâncias eu tenha saído com maiores dúvidas ainda.
Nem todas as respostas estão nos livros. Mas o treino em procurá-las é que me tira do silêncio do mar.

"A pesada couraça ganha asas,
Curta é a dor, eterna é a alegria."
(Últimos versos da peça A donzela de Orleans, de Schiller)

similis similis gaudet (o semelhante busca o semelhante)
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A NAMORADA
(Manoel de Barros)
Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

É um eterno procurar. Melhor ainda é não procurar.
Voar sozinho e ver crescer. Jogar um bilhete para o vento.
Quantas pessoas puderam na vida dizer que experimentaram várias paixões?
Pena que elas vão embora...passam como a brisa que busca outros lugares.
Bom mesmo seria se houvesse um muro que separasse as vontades.
Quando você quisesse se apaixonar pularia e pronto. Sem surpresas.
Sem conquistas. Como no poema de Manoel de Barros em que o bilhete
enganchava nos galhos de goiabeira...
é a vida daqueles que tentam pular o muro desesperadamente.
Eu sonho com alguém que pule o muro para me ver.
Enquanto ninguém pula o muro para me ver...
Fabricio Carpinejar
escreve um poema em meus braços.
DISTÂNCIA QUE O TEMPO NÃO PODE APAGAR

BILHETINHO
Que sensação maravilhosa estar aqui de novo. Quanto tempo!
Minha vida tomou rumos que fica praticamente impossível vir aqui para escrever...
Ainda não é tempo de abandoná-lo meu querido companheiro.
Você não é um diário...é um precioso cofre dourado e esculpido com cada pensamento e desejo.
Construído e planejado. Amado. Nunca abandonado.
Faltar aqui é uma distância que o tempo não pode apagar.

"Não há quem não feche os olhos ao comer, não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita, não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível. Viver é boiar, recordar é nadar. Escrevo na água, no vento da água. O passado sem os olhos fechados é como uma roupa enrugada. Sem corpo. Sem as folhas dos plátanos."
Trecho do texto "Não há de Quê"
(Fabricio Carpinejar)
Eu adoro o Fabricio Carpinejar. 
"Não me deixe viver o que posso,
Que me seja permitido
Desaprender os limites." (F.C.)

Amanhecendo
Um ritual é sempre um ritual. Mas esse tem cheiro de manhã.
Na rua eu abro o portão e ainda, mesmo com todo o óleo, toda a restauração escuto o ranger.
Não é uma casa velha e não que as casas velhas não amanheçam também...claro que sim. Mas o portão sempre fala comigo. Loucura?!! Manhã.
Na rua o vem e vai leva todos e deixa muitos. O carro acelerado abaixo o vidro para ver gente.
Ver gente. Será que eles me vêem? Esquina vira esquina em busca da última parada.
Crianças com suas bolsas pesadas, amarradas às costas fazem seu caminho mudas...sono, aquele sono que não vem na hora de deitar mas que nos derruba na hora de acordar.
Olhar para um lado e para o outro. O sinal verde acaba com a procura. Alguém conhecido? Eu me conheço?
O mesmo caminho. As mesmas árvores. As pessoas mudam. Eu mudo.
O caminho é o mesmo.
O café e aquele seu cheiro que embriaga mais do que bebida forte e entra na veia...entra pra dizer que é de manhã. Muitas manhãs.
E se eu fosse a pé? Seria diferente? Meu corpo busca novas mudanças e novas posições.
O olhar de manhã é aquele febril e doente...sorrateiro e molhado...solto e com a pressa constante de viver.
Eu adoro as manhãs.....
(Eu e o escritor Fabricio Carpinejar)