LONGE É UM LUGAR QUE NÃO EXISTE
(Praia de Jericoacoara -Ceará)
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa.
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Mil lugares.
Mil cheiros.
Mil sensações esquecidas.
A primeira vez que li Fernando Pessoa me encantei. Fiquei amarrada mesmo.
Apaixonada. Folheava e tentava explicar o que não tem explicação.
Achei doido. Depois inteligente. Sábio. Depois doido de novo. E amei.
Um dos grandes casos de amor que tive com os livros.
"Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade..."
Ele me entende. Tem coisa pior do que alguém que vive feliz?
Que se contenta com tudo do jeito que está?
Que nunca quer nada além do que já tem?
Eu quero algo além do mar...além das terras...além do que a vista pode alcançar.
Quero que a brisa da madrugada me leve lá. No paraíso disfarçado.
Subir o monte e ver o pôr-do-sol de mãos dadas. E adormecer.
Adormecer de palavras iguais...em sintonia.
E depois de conseguir isso...desejar tudo novo. Me acalmar na maresia.
Sentir tudo igual em sintonia, para nunca mais sair da memória esse gosto de querer.

"Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver."
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Filme: Nunca Te Vi Sempre Te Amei
Anne Bancroft and Anthony Hopkins
Uma história de amor e gosto pelos livros.
Composição: Paulo Sérgio Valle / Herbert Vianna
Olhos fechados
Prá te encontrar
Não estou ao seu lado
Mas posso sonhar
Aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá...
Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição
E aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá...
Longe daqui
Longe de tudo
Meus sonhos vão te buscar
Volta prá mim
Vem pro meu mundo
Eu sempre vou te esperar
Lará! Larará!...
A MENINA

Nunca ninguém sabe se estou
louco para rir ou para chorar...
Por isso o meu verso tem
esse quase imperceptível tremor...
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso
Ninguém por ninguém!
Por nenhum amor...
A vida continua, indiferente!
Mário Quintana

A menina triste me comoveu. A tristeza da menina me comoveu.
A tristeza sempre me comove.
Sentada no banquinho verde e descascado, ficava por lá horas roendo as unhas e balançando os pézinhos.
Vez ou outra levantava os olhos e passava com eles para o outro lado da calçada, onde meninos brincavam com bolinhas de vidro.
Não levantava. Não brincava. Não sorria. Nem chorava. Somente existia. Era uma criança sentada no banquinho da calçada.
Quando alguém a chamava de dentro da casa, não falava, se levantava e ia com o andar de quem não quer chegar.
Algumas vezes tentei procurar-lhe os olhos. Desviava das bolinhas e subia na calçada procurando outro caminho.
Muitos dias. Muitas semanas. Até meses.
Um dia, passei por ali e o banquinho havia sumido junto com sua companheira.
Perguntei aos meninos - Onde está a menina? - e ninguém sabia.
Não me conformava por ela ter ido embora. Por não saber da tristeza que tinha.
Uma senhora que me ouvira perguntar da menina se aproximou e apressou-se em dizer:
"_ Ah! Já foi tarde a menina. Não era de bons modos. Não conversava com ninguém. Muito estranha a pequenina."
Fui embora. Troquei de rua. Mudei de calçada.
Será que alguém conversou com a menina?
Drika

MENININHA DO PORTÃO (MARIA RITA)
Menininha sai do portão
Vem também brincar
Vem pra roda
Me dê a mão
Traz o seu olhar
Vou girando na roda
Vou cantando à sua espera
Quem me dera um dia
Ter seus olhos
Cor da primavera
Todo o dia no seu portão
Vejo o seu olhar
Bate forte meu coração
Mas não sei contar
E eu pego a viola
Faço um verso feito um trovador
Quem sabe, então
Você me dê...
Me dê o seu amor
Todo o dia no seu portão
Vejo o seu olhar
Bate forte meu coração
Mas não sei contar
E eu pego a viola
Faço um verso feito um trovador
Quem sabe, então
Você me dê...
Me dê o seu amor
Menininha.
Tudo que passa ou não conheço amo mais. O já perdido.
O bairro antigo. O livro que não terminei de ler.
A saudade da primeira leitura.
Os mais velhos. Os recortes do passado. As palavras que ainda não sei.
Os amigos ou queridos que não podem falar porque já morreram.
As passagens da memória. O portão da minha casa da infância.
As coisas que ainda não sei. O vestido floridinho da minha avó.
O cheiro da comida daquele dia. O sorriso que nunca vi ou escutei.
Os amigos que não tive. As palavras que não me deram.
O amor que não conheci. A minha infância foi tão rápido.
Deveria ter ficado muito mais naquele banquinho esperando meu amigo.
Ainda o espero.
COMO SE FAZ UMA TESE

"Fazer uma tese significa divertir-se, e a tese é como um porco: nada se desperdiça."
(Umberto Eco)

Comprei esse livro ontem. Terminei de ler hoje.
Escrever uma tese é como escrever um livro.
A tese está em construção.
"Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras".
Li essa frase na agenda de uma amiga. Ela me disse que não sabia de quem era.
Eu não comprei o livro porque queria uma receita para minha tese.
Claro que o título do livro me chamou a atenção porque o assunto faz parte da minha vida atual.
Porém, Umberto Eco sempre me acompanhou em alguns momentos de leitura como : "O nome da Rosa", "Mentiras que parecem Verdades" enfim, fiquei curiosa em saber o que um mestre da escrita tem a dizer sobre escrever.
Muitos pensam que escrever é um dom apenas, e que a pessoa se acomete de um momento de inspiração profundo e sai escrevendo sem parar.
Escrever dá trabalho. Escrever faz pensar. Escrever pode não seduzir quem lê e o escritor acaba na solidão das palavras.
Na filosofia da composição de Poe, ele deixa bem claro que escrever é acima de tudo muito trabalho. Fica a cargo da inspiração uma pequena parte. Como então pensar um Fernando Pessoa, Machado de Assis sem inspiração? Eles têm uma inspiração que se chama trabalho, inteligência, necessidade de escrever, observação refinada e humildade científica. Todo grande escritor nunca precisou falar que era grande. Outros falaram.
Mas como não pensar que nascem assim? Do contrário, como então se tornar assim?
Sabe qual o meu medo? Que um dia escritores bons não queiram mais escrever. Que somente haja lugares para aqueles livros místicos e idiotas que as pessoas compram porque está na moda. Compram porque o "escritor" é famoso ou não sai da televisão. Nem quero pensar nisso. Umberto Eco também tem esse medo. Por isso escreveu esse livro. Muitos "escritores" deveriam lê-lo. Tenho certeza que não cometeriam muitos "pecadinhos" ignorantes que vêm comentendo. Ou se continuassem a fazê-los é porque não são escritores mesmo. São vendedores de livros. Eu conheço um vendedor de livros que quando não gosta não recomenda. Como ele é sincero! Ele deveria escrever.
É como música. Tem aquelas que você fica ouvindo e ouvindo e não cansa. A letra é tão linda ou tão instigante que você viaja.
E tem aquelas que te levam também...para o inferno. Respeito. Eu sei. Eu respeito. Mas e os meus ouvidos? Quem respeita?

Passo horas lendo em livrarias e tomando café. Será que tem gente igual a mim?
Talvez. Alguns não conseguem ficar dez minutos lendo.
Eu não me vejo em certos lugares. Em outros gostaria de conhecer.
Cada um se encaixa em seu devido caminho. Será que tem gente que não se encaixa em nada?
Será que alguém vai ler meu livro? Quantas perguntas.
Um dia encontro minha xícara. Tomara que ela goste de livrarias e de tomar café.
| Eu tenho idéias e razões, Conheço a cor dos argumentos E nunca chego aos corações. F. Pessoa, 1932 |

Composição: Humberto Gessinger
ando só
pois só eu sei
pra onde ir
por onde andei
ando só
nem sei por que
não me pergunte
o que eu não sei
pergunte ao pó
desça o porão
siga aquele carro
ou as pegadas que eu deixei
pergunte ao pó
por onde andei
há um mapa dos meus passos
nos pedaços que eu deixei
desate o nó
que te prendeu
a uma pessoa que nunca te mereceu
desate o nó
que nos uniu
num desatino
um desafio
ando só
como um pássaro voando
ando só
como se voasse em bando
ando só
pois só eu sei andar
sem saber até quando
ando só .
JANUS

A palavra janela nos remente ao mês de janeiro, que dá entrada ao ano, e que recebeu este nome em virtude do deus Janus (possuidor de duas faces, uma olhando para o passado e outra olhando para o futuro), o protetor das portas e entradas de uma casa ou cidade. Janela é o diminutivo de janua que, em latim, significava entrada principal de uma casa particular. Pela janela (e no início de um novo ano, no mês de janeiro), podemos olhar para o passado e para o futuro. Como um deus.
Quando eu estava na faculdade e, obrigatoriamente, tínhamos aulas de latim, minha atenção servia de riso para meus colegas que não entendiam meu fascínio por esta língua. Achava (acho) fabuloso descobrir que por trás de palavras que, hoje, se tornaram tão comuns em seu uso, carregam um significado que abre nossos olhos para o passado do futuro. Sem saber a história das palavras que utilizamos, muitas vezes as sub-utilizamos, e não exploramos seu potencial metafórico, seus desdobramentos.
Li outro dia um pensamento de Oscar Wilde: " O passado não tem a menor importância. O presente não tem a menor importância. Precisamos é nos preocupar e nos ocupar com o futuro. Porque o passado é aquilo que os homens não deveriam ter feito. O presente é o que os homens não devem fazer. E o futuro é aquilo que os artistas fazem."
Quando li isto discordei rapidamente. Porém, depois de um olhar mais atento - pois Wilde sempre precisa deste olhar (me apaixonei por ele quando conheci Dorian Gray e pintei sua imagem na minha cabeça por dias e dias - é isso que os livros fazem com a gente...os bons livros não são feitos de papéis e letras. São feitos de espelho!) encontei uma solução. Sempre procuro uma solução no que leio. Porque quando leio enfrento problemas.
Uma infinidade de pensamentos e conselhos rezam que não devemos nos preocupar com o passado e nem com o futuro. "Viva o presente", e vem este tal de Wilde nos dizendo que é o futuro que importa.
O futuro pertence aos artistas. São eles que não se contentam com o homem que foi (e não deveria ter sido assim)no passado, e com o homem que é (e não deve ser assim) no presente.
Quando vi assim, desta forma, entendi. Tudo aquilo que não aconteceu, ainda, é tudo o que me interessa, porque eu, como "artista" de minha vida posso alterar. Certamente o futuro se faz com o presente e o passado. Mas somente ele - o futuro - é aquela janela aberta. Tal qual o mês de janeiro. Janeiro - janela para um novo ano. Abertas as expectativas. Os desejos. Os compromissos. Tem coisa melhor do que o incerto? A perspectiva de que algo novo, maravilhoso, melhor irá nos acontecer? Nem passado e nem presente comportam esta sensação. Não há como! Só o futuro pode. Saber que sempre podem existir surpresas me fez não dar tanta importância a pequenas coisas insignificantes. Não supervalorizar os momentos tristes ou que não sairam como eu esperava.
Tudo isto por um simples ato: ler. Por isso amo ler. Ler me coloca em lugares que já estive (pensamentos e certezas) e em lugares que nunca estive também (construções de novas certezas).
Minha prioridade é abrir a janela da minha vida. Me autoconhecer. Jung dizia: "quem olha para fora, sonha - quem olha para dentro, desperta." Tem algo mais inexplicável do que eu mesma?

William Arthur Ward, no começo do século XX, diz que há quatro tipos de professores: o professor medíocre, que expõe; o bom professor, que explica; o grande professor; que demonstra; o professor excepcional, que inspira.
Neste janeiro estou fazendo um balanço. Do que fui. Do que sou. Do que posso me tornar. Eu realmente nunca entendi essa fascinação que meus alunos têm por mim, apesar de confessar que me sinto muito bem em saber disso. Vou mais longe, primo em despertar isto pensando que, assim, eles buscarão o tal falado aprendizado autônomo. Nas aulas de literatura eles brilham. Em meio a risadas, conversas e perguntas, me deixam entrar em seu mundo. Mas será que eu os inspiro? Será que me vestir de Hamlet ou falar como a Julieta de Shakespeare me coloca em qual nível de professor? Janeiro serve para isto. Balanço geral. Queria conseguir mais.
"Pintou estrelas no muro e teve o céu ao alcance das mãos." Helena Kolody

As estrelas eram uma das grandes motivações das pinturas de Van Gogh.
Ele disse certa vez: "Quero expressar a esperança por meio de alguma estrela".

De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois...
Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer...
Que vejo flores em você!...
De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois...
Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer...
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!...

Ai Que Saudade de Ocê
Não se admire se um dia
Um beija-flor invadir
A porta da tua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo
Ai que saudade de ocê
Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim:
"faz tempo que eu não te vejo
Quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim"
E se quiser recordar
Aquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Você caia no choro
Vou chorando pela estrada
Mas, o que eu posso fazer ?
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é de ocê.

Morrendo de saudades daqui. Não é dessa vez ainda.
Estes meus sumiços são necessários...pura falta de tempo.
Apesar de estar de férias estou estudando feito louca.
Amei os recados de todos vocês, meus amigos, para o ano de 2008.
Meus desejos são todos para vocês também: de muito amor e infinito sucesso.
Uma amiga me disse esses dias que eu tenho mel. Mensagem subliminar.
Desejo muito mel a todos vocês.
Desejo que o meu mel encontre alguém realmente ímpar este ano.
Não que eu não tenha encontrado...mas ainda não é o pássaro azul.
Eu e meu pássaro azul! Sempre sonhando...quem lê meu blog desde o início,
início até do outro endereço...sabe que a calmaria chegou.
Uma calmaria boa, conquistada e feliz. Mesmo eu sendo esse ardente
respirar que sou. Quem me conhece sabe do que estou falando:
falar e pensar depois, sorrir muito mesmo quando está chorando,
chorar mais ainda...chorar com a alma, devagar, pulsando...
criar complexidade onde não tem...mas facilitar ao máximo quando pode...
suspirar por quem foi embora e nem se lembra de você...suspirar quando alguém
se lembra também...escrever muito para substituir a tontura, a ânsia que tudo
me faz e diz...subir no topo do plano e achar que fez muito...mas tentar alcançar
aquilo que ninguém conseguiu e tentar e tentar e tentar...e conseguir...
amar a tristeza porque por trás dela pode vir a felicidade...ajudar mesmo
quem não precise pois, na verdade, quem precisa sou eu...observar calada
para falar mais tarde com profunda exatidão, e ficar feliz por isso, pois na maioria das vezes
falei sem observar mesmo...se emocionar quando todos não acham nenhuma emoção...
ter saudades de sei lá o quê e sei lá onde....e mesmo assim sentir....aquele olhar
que todo mundo acha que provoca, mas na verdade está pedindo colo...
atender o celular querendo que seja alguém que eu não conheça, ou que conheça
e sempre quis que ligasse...continuar beijando - adoro beijar - beijei muito por opção
mesmo, por vontade...eu beijo minha família toda - sempre - meus alunos (os grandes
não - pega mal)...mas desta vez, queria beijar aquele beijo que deixa a boca da gente
sem palavras por um tempão - adormecida - desesperada - eu me vejo mas nem
sempre foi assim. Às vezes, me perco...grito e ninguém me escuta. Isso é apavorante...
esse ano quero outros vícios (já os tenho de sobra!)...um não dá para largar que é ler...
mas é um vício cruel...quanto mais o tempo passa, mais eu leio e mais eu quero parar
de ler e somente escrever...só que não consigo. Ponto. Ai que saudade de ocê.